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Tradução autorizada

Enfiando a cabeça na areia, todos juntos

Por que nós, adultos, somos tão incapazes de ver (ou de dizer?) que a escola é uma causa importante (a principal?) do sofrimento psicológico das crianças?

Peter Gray, em Play Makes Us Human, 2 de setembro de 2026. Tradução de Vladimir Dietrich · 7 min de leitura
Os links levam a versões em português — nossas, quando existem, e tradução automática no resto. O selo abre o original em inglês: EN.

Caros amigos,

Em cartas anteriores e no meu novo livro Restoring Childhood, apresentei múltiplas linhas de evidência de que a escola há muito tem sido uma das principais causas de ansiedade e depressão entre crianças e jovens em idade escolar, e de que uma mudança nas políticas educacionais — e não o surgimento das redes sociais e dos smartphones — foi a causa primordial do aumento desse sofrimento nos Estados Unidos a partir de 2010 ou pouco depois.

Venho percebendo que muitas pessoas concordam que smartphones e redes sociais não são causas significativas do aumento do sofrimento das crianças iniciado por volta de 2010. Entre os que concordam estão essencialmente todos os cientistas sociais mais profundamente envolvidos na condução e na revisão de pesquisas relativas a essa hipótese. Os dados simplesmente não sustentam a hipótese das redes sociais e dos smartphones (veja exemplos aquiEN, aquiEN e aquiEN).

No entanto, mesmo aqueles em posições de autoridade que rejeitam a hipótese das redes sociais e dos smartphones têm, até agora, evitado quase que unanimemente examinar a minha hipótese alternativa — a de que uma grande mudança na forma como estruturamos a escolarização, instituída pelos Common Core State Standards, aumentou o estresse escolar e, com isso, elevou as taxas de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes, em especial entre os adolescentes. Eles não apoiam nem contestam o que digo a esse respeito; simplesmente ignoram.

Evidências dos danos psicológicos produzidos pelas nossas escolas

À primeira vista, seria de se esperar que uma mudança em âmbito nacional na política escolar fosse o primeiro lugar a se investigar como causa potencial do aumento do sofrimento psicológico das crianças. As crianças passam mais tempo na escola do que em qualquer outro ambiente com exceção da própria casa, e as nossas escolas, por sua própria natureza, são geradoras de estresse.

Na escola, as crianças são microgerenciadas, ouvindo a quase cada minuto o que devem e o que não devem fazer. Na escola, são constantemente julgadas em comparação com seus colegas — quem é melhor, quem é pior? Na escola, não têm permissão para conversar com seus companheiros a menos que recebam ordem para isso, e aí passam a ser obrigadas a fazê-lo. Na escola, são repreendidas se atrasarem mesmo que um único minuto, e precisam pedir autorização para ir ao banheiro. Na escola, as crianças são privadas daquilo que todos nós consideramos direitos humanos fundamentais.

Como já afirmei muitas vezes (e até agora ninguém me contradisse nisso), nenhum adulto aceitaria de bom grado um emprego que fosse minimamente parecido com o modelo de escolarização que impomos às nossas crianças. Todos nós consideraríamos isso um trabalho infernal. Além de tudo isso, muitas crianças são levadas a acreditar que o fracasso escolar prenuncia o fracasso na vida. É como se o rendimento escolar fosse uma régua para medir o valor delas como seres humanos.

A lógica de por que a escola gera ansiedade e depressão entre os alunos é tão óbvia que qualquer evidência empírica poderia parecer redundante. Contudo, as evidências empíricas são avassaladoras. Eis, em tópicos, parte das evidências que documentei em cartas anteriores (por exemplo, aquiEN) e que documento com mais detalhes em meu novo livro:

• Em pesquisas nas quais se pergunta aos alunos o que mais lhes causa estresse, a escola sempre aparece no topo. Nada mais chega perto. Isso vale para estudantes de todas as faixas etárias e de ambos os sexos. > > • Todos os anos, quando começam as férias escolares de verão, as taxas de ansiedade, depressão, internações psiquiátricas infantojuvenis e suicídios entre adolescentes despencam; e, a cada outono, com a volta às aulas, essas taxas tornam a subir. Por algumas medições, chegam a dobrar. > > • Em estudos internacionais comparativos, as taxas de ansiedade, depressão e suicídio não se correlacionam com a disponibilidade de smartphones ou redes sociais para crianças, mas se correlacionam fortemente com as características estressantes do sistema escolar. > > • Os parâmetros curriculares do Common Core, adotados pela maioria dos 50 estados americanos a partir de 2010 (e implementados gradualmente ao longo dos dois ou três anos seguintes), aumentaram drasticamente o estresse escolar. O Common Core determinou que professores, diretores e redes escolares inteiras seriam avaliados com base no desempenho dos alunos em testes padronizados que cobriam um espectro estreito de conteúdos, sobretudo matemática, leitura e escrita. O efeito inevitável foi a redução da liberdade dos professores para adaptar suas aulas às necessidades e aos interesses dos estudantes e para envolvê-los intelectualmente de verdade, além do aumento de treinos maçantes e desgastantes para provas. Recreios e outras disciplinas e atividades outrora prazerosas foram sacrificados em prol do treinamento para testes padronizados. Em levantamentos feitos nos primeiros anos do Common Core, professores, psicólogos escolares e outros profissionais ligados à educação — e não apenas os alunos — relataram que essas mudanças tornaram a escola mais estressante. Muitos dos melhores professores pediram demissão ou se aposentaram precocemente.

Quero deixar claro: não estou afirmando que a pressão escolar seja a única causa do sofrimento mental entre crianças, nem que seja a causa principal para toda e qualquer criança. Para crianças vítimas de abuso doméstico, filhos de pais dependentes químicos, crianças submetidas a bullying implacável ou que enfrentam traumas graves na vida, essas fontes de sofrimento podem superar de longe o estresse escolar. No entanto, essas fontes de estresse atingem apenas uma parcela do total da população infantojuvenil, ao passo que a escola atinge essencialmente a todos. É por essa razão que, em pesquisas com a totalidade dos jovens, a escola sempre surge no topo como a maior fonte de sofrimento, enquanto as outras razões aparecem bem mais abaixo na lista.

Por que não encaramos os fatos?

Então, por que nós, adultos, somos tão relutantes em admitir o que parece evidente: que a escola, para a população infantojuvenil em geral, é a maior causa de sofrimento psicológico? Por que até os cientistas que publicam dados em revistas acadêmicas demonstrando os danos causados pela escola não divulgam suas conclusões de forma mais ampla? Por que os jornalistas não abordam o tema? Por que pais que testemunham o sofrimento dos próprios filhos relacionado à escola costumam atribuí-lo a outros fatores — talvez à "neurodiversidade" ou a algum problema desse tipo na criança, e não a um problema da escola? Acredito que seja mesmo um caso de enfiar a cabeça na areia.

Simplesmente não queremos aceitar que a nossa rede pública de ensino, que há tanto tempo desfruta de uma auréola imerecida e onde as crianças são obrigadas por lei a estar, seja uma das maiores fontes de sofrimento infantojuvenil. Admitir isso significaria culpar a nós mesmos, como adultos que compartilham da responsabilidade de permitir a continuidade de um sistema abusivo. Além disso, reestruturar o nosso sistema de escolarização de modo a resolver verdadeiramente o problema parece uma tarefa monumental.

É muito mais fácil e confortável colocar a culpa nas gananciosas empresas de redes sociais. E, sim, elas são de fato gananciosas; e, sim, tentam usar quaisquer meios ao seu alcance para explorar a nós e aos nossos filhos; mas elas NÃO são uma causa importante do aumento do sofrimento psicológico das nossas crianças.


Adendo

Meu novo livro, Restoring Childhood: How to Set Kids Free in the Age of Anxiety, já está, a partir de 15 de setembro de 2026, disponível para compra. Eis algumas opções de lojas online onde ele pode ser adquirido:

AmazonEN Barnes & NobleEN Books A MillionEN Bookshop.orgEN Hudson BooksellersEN Powell’sEN TargetEN WalmartEN

Para saber mais sobre o livro, veja aquiEN.

Parte do resgate da infância envolve transformações no nosso sistema escolar. Mas isso é apenas uma parte de tudo, como você verá no livro.

Com respeito e votos de tudo de bom,

Peter


Nota do tradutor

Traduzido do original em petergray.substack.com e publicado com autorização do autor (e-mail de 30/08/2026). Distribuição gratuita e não-comercial.